terça-feira, 3 de maio de 2016

VIVA OS TRINTA

06/07/2015 – 21.00h Escrito enquanto aguardávamos a pizza no Restaurante La Casona, Buenos Aires, ao deguste de uma taça de vinho, no dia de nossos 30. ‘Quem pensou em trinta? Eu não pensei em nada... Muito menos em números! Pensei em você! Não pensei em tempo, mas em intensidade: Que seja intenso enquanto dure e que só a morte nos separe! Isso foi o que imperou. A graça de Deus nos brindou até aqui com trinta, e nada, ou mesmo a morte, nos separou. Foram trinta anos de expectativas, realizadas ou não. Trinta anos de sonhos que se concretizaram ou ainda estão por ser. Trinta anos com esperanças, sorrisos e alegrias aos montões. Trinta anos onde lágrimas rolaram, tristezas nos derrubaram, lutos e sustos se fizeram então. Trinta anos contemplados com quatro filhos que completam os sonhos e alegrias que apontam para alegrias maiores por vir. Trinta anos que, é meu anseio, vê-los dobrados ou triplicados, sem devaneios. Trinta anos que Deus nos deu e outros tantos que se fará com a graça e favor do mesmo Senhor. Trinta anos que tivemos um ao outro e um ao outro tivemos. Só valeu a pena, Iris. Caminhar com você aqui em montanhas ou campinas, escalando planícies ou picos íngremes, sempre foi o meu prazer. Caminhar com você até aqui me assegura de continuar a jornada em meio a flores ou dura estrada. Amparo-a em mim, amada. Trinta anos foram os tais. Que venham os tais mais. Com o mesmo amor!’ — com Iris Torres da Cunha.

SUSPIROS PELO FUTURO

27/04 – 09.30h O presente é bruto e insensível, em sua realidade nua e crua. Por vezes o presente dói, magoa a alma e o sonho destrói. Encarar o dia a dia com suas realizações, suas conquistas ou decepções, Produzem na alma profundas escoriações de quem luta por viver bem. Olhar o sol ardente em meio às quimeras do cotidiano da vida Pode incentivar a corrida ou sangrar as feridas! Uma ou outra são resultantes óbvias em tudo com que se lida, E esse é o resultado repelente e não menos frequente no presente. O futuro é inspirador, pois lida com o ilusório, utópico ou irreal. Leva a alma nas asas da brisa e se enleva nas nuvens do sonho. O futuro encantador, enigmático e medonho; Assim anima e enseja risos para a alma frugal; Despertando como fagulhas, uma esperança empolgante, Que, como criança, a alma acredita e se entrega ao além, Almejando e suspirando pela realização de seus sonhos Aguardando que o futuro se faça presente, sem seu desdém. Enquanto o futuro não vem, a alma geme em profundos suspiros Anseando a paz e a serenidade numa experiências de alegre prazer, Que do presente ao futuro se fizera sonhar e antever Vivendo nas brumas e névoas de uma vida sem muros. Ah! O futuro! O que ele trará? Será certo e seguro? O enigma faz a alma suspirar e ansiosa almejar Que de lá venha para cá o troféu de um enduro Onde, em prazeres, o presente possa se realizar. Ah! Futuro! Não me deixe no escuro! Venha, futuro e transforme o meu presente! Torne realidade o sonho que ainda tão latente Pode realizar a utopia de um prazer emergente!

‘Quem é Esta Mulher?’, Eu Sei!

Emiliano 08/03/2016 08.16h Qualquer um pode levantar a mesma pergunta Uma boa questão para qualquer ocasião, E diante do enigma, engendra e responda Mitiga esta ambígua, o aquinhoado varão! É tal a mulher, que se levanta em minha mente então? Esta mulher é única e especial, sem se achar outa igual Sua personalidade jovial, firme, mesmo em temporal. Timbre indelével, de caráter e honradez Amante da arte, sensibilidade e polidez Me vejo privilegiado, desde há muito, então, Um achado entre milhares, como presente do céu Li na Bíblia que assim se dá, é como morar em Beulá, Honra, valor e respeito terá, Enigma perdura e a busca se acura Responda pra mim quem é, e onde está? Entre tantas, uma desponta e me encanta Uma entre todas por demais as suplanta Sei responder, sem meneios dizer Encontrei esta pérola, com matizes de flor Iris é seu nome, e também meu amor!

POR QUE?

Porque você é companheira! Você é amiga! Você é mãe cuidadosa! Você é mulher de luta, garra. Você é virtuosa! Você é amada De Deus! Porque? Íris, te amo.

DEVANEIOS

A minha atualidade O meu futuro A minha vida Esse é o código Ah, se você soubesse! Sabe, aquela coisa de criança: De não poder contar, Mas querer falar, E querer que todos soubessem?! Ah, se você soubesse! Que você não saiba. Que ele dure muito até que se descubra. Que ele nunca acabe até que você o leia. Não deixe que sua mente devaneie. Não deixe que a aranha faça teia. Nada há de estranho e refratário. Esse é o código: meu diário.

FAZE-ME COMO A OSTRA, MEU SENHOR!

Não sei se isto é pedir demais.... FAZE-ME COMO A OSTRA, MEU SENHOR! Wesley Ernesto de Rezende. Senhor, o mar estava tão lindo naquela manhã... E sem que eu quisesse, quando eu introduzi a mão na areia, Pude ver que aquele objeto que segurei era uma ostra. Fiquei por horas e horas com ela em minha mão. Uma matéria resistente, e no seu todo uma abertura E uma substância sensível. Imaginei o quanto este pequeno ser é valioso. Senti vontade de duvidar que no seu interior existisse uma pérola. Quando me lembrei que aquela ostra transformava coisas simples em coisas valiosas, Minha vontade, Senhor, não foi outra, se não ser igual a ela. Apesar de ter uma parte rígida em mim, Tenho, da mesma maneira que a ostra, uma parte frágil. Só que, as vezes, sou diferente dela. Minha parte delicada passa a ser prepotente, Pois meu coração que deveria em todo tempo ser compassivo passa a ser rígido. E o meu ‘eu’ que deveria ser sempre solidificado em Ti, Quase sempre se desmorona diante de todas as coisas negativas, A ponto, senhor, de me fazerem dominado por elas. E como isto é tão horrível, meu Senhor! Será que podes atender o meu pedido? Queria ser igual aquela ostra pequenina habitando no imenso mar. Dá-me força para que no mar da vida eu possa transformar o negativo Em pérolas preciosas, positivas, úteis ao teu reino, abençoadas por Ti mesmo. Permite, Senhor, que a minha parte rígida funcione tal qual a da ostra: Que diante do ribombar das ondas e dos cascalhos do mar, Sempre se mostra em condição de resistir. E que o meu interior, seja como uma caixa de sugestões Disposto a receber tudo quanto quiserem colocar, E que tenha condição de sem nada reclamar, Receber tudo quanto no mundo existir, E que tal como o homem da Bíblia, examinar tudo, Retendo apenas o útil para mim e para o teu reino. Depois, em resposta tudo quanto receber, Não me preocupar com o valor do que o mundo me entregar, Mas que minha principal preocupação seja transformar tudo, Principalmente o meu ‘eu’ negativo E toda a imensidão de coisas fúteis que existem em mim, Em pérolas preciosas aos teus olhos, Necessárias ao teu reino. Faze-me como a ostra, Senhor: Capaz de fazer coisas sem valor, pérolas valiosas. Capaz de dar aos homens um pouco mais de valor.

BARRABÁS: O PROCESSO CONTINUA!

[‘Der Prozess Geth Weiter’ – Rudolf Otto Wiemer] BARRABÁS: O PROCESSO CONTINUA! [‘Der Prozess Geth Weiter’ – Rudolf Otto Wiemer] ENTENDA A PEÇA: Uns dias antes da morte de Cristo, os soldados de Jerusalém prenderam um marginal chamado Barrabás. O delinqüente foi julgado e condenado a morte. Deveria morrer cravado na cruz. Uma morte cruel. A morte por crucificação é lenta e cruel... Às vezes, o crucificado ficava cravado na cruz por dois ou três dias, até morrer. O sol durante o dia e o frio durante a noite, a fome, a sede, a perda de sangue, as dores musculares e cãibras, pouco a pouco vão acabando com a vida do crucificado. ‘... por ocasião da festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, escolhido pelo povo. Nesta Páscoa, propôs soltar um dos dois, Cristo [também condenado a morte] ou Barrabás. A multidão pediu que soltasse Barrabás e consequentemente deixasse que Cristo fosse levado à cruz. Barrabás [o assassino], estava livre. [Provavelmente] o primeiro homem que entendeu que Cristo morreu em seu lugar foi o delinquente Barrabás’(Tirado de O Mensageiro 2003). A peça O Processo Continua conta a suposta história de Barrabás de sua libertação. Depois de colocado em liberdade, Barrabás foge noite adentro e vaga pelo mundo por séculos e milênios e, mesmo estando livre, não encontra a liberdade. O processo de Barrabás é o processo do ser humano que não quer aceitar a graça. Ele, o primeiro dos absolvidos por Cristo, está no lugar de todos nós. Nele, na sua pessoa, nós fomos anistiados de modo inacreditável. Por isso, a sua dúvida é a nossa dúvida, a sua inquietação é a nossa inquietação, a sua obstinação, a sua cegueira, o seu arrependimento – tudo é nosso. Em um ponto, porém, o Barrabás da peça está à nossa frente: ele sofre tanto com a sua culpa que não procura somente o agraciador, mas também o acusador. Ele se submete ao julgamento. E qual vai ser a sentença? Você vai decidir! BARRABÁS: O PROCESSO CONTINUA! [‘Der Prozess Geth Weiter’ – Rudolf Otto Wiemer] Orientação: O processo de Barrabás é o processo do ser humano que não quer aceitar a graça. Ele, o primeiro dos absolvidos por Cristo, está no lugar de todos nós. Nele, na sua pessoa, nós fomos anistiados de modo inacreditável. Por isso, a sua dúvida é a nossa dúvida, a sua inquietação é a nossa inquietação, a sua obstinação, a sua cegueira, o seu arrependimento – tudo é nosso. Em um ponto, porém, o Barrabás da peça está à nossa frente: ele sofre tanto com a sua culpa que não procura somente o agraciador, mas também o acusador. Ele se submete ao julgamento. Por isso também ele consegue encontrar o seu direito: o direito de aceitar a graça. O caso de Barrabás está incluído em uma sessão real, como se fosse uma visão. Os magistrados percebem imediatamente que os acontecimentos da sexta-feira santa se repetem em cada processo humano: isso também ocorre no caso de pessoas com o nome comum ‘Silva’. O processo quanto à culpa e graça realizado no tribunal de Pilatos não se esgotou definitivamente: o processo continua. A qualquer momento podemos estar envolvidos nele, pois somos nós que estamos sentados no banco dos réus ou à mesa do juiz – isso não faz tanta diferença. Este tipo de pano de fundo não é novidade na peça amadora. Ele exige sobriedade e domínios dos meios. O descobrimento do cenário não deve ser acentuado por técnicas espantosas, mas deve ser aceito com naturalidade, mesmo a aparição do anjo. O cenário deve se restringir a alusões. Uma mesa larga para o juiz; um banquinho para o réu; uma prateleira com livros; várias pastas; uma Bíblia e um calendário com algarismos grandes são necessários. Além disso, um foco de luz que ilumine a figura do anjo. É desejável que a intensidade da luz sobre o palco possa ser controlada. Toda a cena centra (páginas 5-21) não é apresentada com iluminação total, mas de forma que todos os personagens possam ser bem reconhecidos; não uma penumbra mística. O vestuário deve ser usado com cuidado. O juiz, o promotor e o advogado não devem se preocupar com realismo. Uma capa preta é suficiente para caracterizá-los como personagens da justiça; não se deve usar o barrete. O escrevente se apresenta sem uniforme. Não é a economia e sim o exagero na verossimilhança que prejudica o efeito interno. O anjo se apresenta com calças de agasalho amarradas abaixo do joelho por faixas claras cruzadas, um blusão verde-escuro, cinzento ou amarelo claro (e não preto) preso com um cinto; os braços nus ou mangas curtas. Naturalmente o anjo será representado por um ator do sexo masculino. Barrabás se apresentará com calças curtas, blusão comprido por cima, as pernas nuas e sandálias nos pés. A mãe vestirá uma saia comprida e escura, com xale escuro. Deve-se cuidar para que os três representantes da justiça se diferenciem na linguagem e nos gestos. O promotor deve ser arguto e cético; o juiz, humano e benevolente; o advogado de defesa, pensativo e o mais disposto a ceder. O anjo deverá falar completamente sem emoção: ele é apenas um mensageiro. Barrabás começa recluso, num silêncio obstinado. No decorrer da peça ele se inflama em explosões violentas; no final está outra vez quieto, mas não mais fechado e desesperado; a sua atitude deverá demonstrar que a mudança o tocou. A mãe, severa, calma, muito precisa nas suas afirmações. Os momentos de silêncio não devem ser prolongados exageradamente. Os expectadores devem ser envolvidos claramente na ação. Duração da peca: 45 minutos. Naturalmente a peça pode ser apresentada também em outras épocas do ano além da Páscoa, pois sexta feira santa é sempre. Neste caso observem as seguintes alterações do texto: 1. Página 4, última linha: ● Advogado: Não. (Daí saltar para a linha da página 5). ● Juiz: Sem brigas, meus senhores. 2. Página 8, linha 6: ● Juiz: Não temos tempo a perder (Daí saltar para): ● Anjo: Lá também foi pronunciada uma sentença. 3. Página 21, linha 22: ● Escrevente: Caso Silva. (Daí saltar para): ● Juiz: (ergue a Bíblia, diz para o escrevente): Coloque... (Neste caso não será necessário usar o calendário). PERSONAGENS: Barrabás. Juiz. Promotor. Anjo. Advogado de defesa. Mãe. Escrevente. No tribunal. No fundo a mesa do juiz; à direita, o banco dos réus. Do outro lado, uma prateleira com pastas, etc. Na parede, um calendário grande. A platéia ainda está iluminada. Escrevente: (Traz uma pasta e a coloca sobre a mesa do juiz): Caso Silva. Parece que esse Silva tem muitos conhecidos (volta-se para o público), já que todos as senhoras e os senhores estão aqui. Ou será que vieram por curiosidade? Isso seria muito pouco. Pensem, afinal o réu também é um ser humano – bem deixem isso pra lá. Eu recomendo que as senhoras e os senhores se mantenham atentos e em silêncio perante o tribunal. Se não, poderemos ter dificuldades desnecessárias. Como? (Aponta para uma pessoa) O senhor disse alguma coisa? Os senhores são expectadores e nada mais. E está bem assim, não está? Afinal de contas, não é fácil ser réu de morte. Ser juiz também não é (Apaga-se a luz da platéia). Ótimo. Fiquem aí no escuro. As senhoras e os senhores não são importantes. Aqui a única coisa que importa é o processo. Processo Silva. E se o homem é realmente culpado... ou quem é o culpado... Promotor: Não há dúvida quanto à culpa. Acho que hoje a sentença será decidida. Juiz: Ele já confessou? Promotor: Isso é secundário. Os indícios são esmagadores. Advogado: Mesmo assim deveríamos das uma oportunidade ao réu para aliviar a sua consciência com uma confissão. Promotor: Consciência? E o senhor acha que um assassino tem isso? Advogado: Todo mundo tem consciência. Mesmo a pessoa mais decaída. Promotor: Então o senhor não o considera um caso perdido, esse Silva? Advogado: Não. Promotor: Por que não? Advogado: (Agora ao lado do calendário, arranca a folha e mostra ao promotor): Que dia é hoje? Promotor: (Com espanto): Quinta feira. Dia de sessão. Como sempre. Advogado: Quinta feira antes da Páscoa. Portanto amanhã é ... Promotor: Sexta feira Santa. Advogado: O senhor sabe porque eu não considero esse indivíduo aí (aponta para a pasta) um caso perdido? Promotor: Não seja ridículo. Hoje em dia ninguém se importa mais com isso. Juiz: Sem brigas, meus senhores. (Mais baixo) Não se esqueçam que hoje o tribunal está aberto ao público. (Eles sentam). Guarda! Introduza o réu. Escrev: (Vai até a porta e chama) Guarda! (A luz se apaga completamente) Guarda! (Ecoando lá fora) Guarda! (Subitamente aparece o anjo num facho de luz) Juiz: Quem é o senhor? Anjo: O guarda. Juiz: Mas então eu deveria conhecê-lo. Anjo: Muitos não me conhecem. Juiz: Estranho. Normalmente eu tenho uma ótima memória para fisionomias. Anjo: O senhor conhece Pilatos? Juiz: Pilatos? (Ri meio sem graça) É claro que conheço. Quero dizer, pessoalmente ainda não tive a honra. O senhor o conhece? Anjo: Eu era o guarda no seu palácio. Juiz: (Pasmo) Como? O senhor era o guarda de Pilatos? Antigamente, há dois mil anos? O senhor está querendo zombar de mim? Anjo: Estou falando sério. Juiz: Não diga bobagens! De brincadeira eu ainda aceitaria, mas a sério? O senhor sabe onde está? Anjo: No tribunal. Juiz: Exatamente. Então o senhor está a par da situação. Além disso, hoje há uma sessão importante. Trata-se ... Anjo: Do homem. Juiz: Exato. Daquele Silva. Não podemos perder tempo. A sentença deverá ser decidida ainda antes das festas. E amanhã já é ... Anjo: Sexta-feira Santa. Como daquela vez. Juiz: (Cada vez mais espantado) O senhor está se referindo àquela única Sexta-feira Santa, há dois mil anos? Anjo: Sim, é dela que eu estou falando. Juiz: E o que nós temos a ver com isso? Anjo: Lá também foi pronunciada uma sentença. Juiz: O senhor está se referindo outra vez a Pilatos. O senhor tem algo a ver com ele. Ele não lhe dá sossego. Mas, Deus do céu, será que o processo não foi definitivamente esclarecido naquela ocasião? Anjo: Não, não foi definitivamente esclarecido. O processo continua. Juiz: (Olha admirado para o anjo e então diz) Pois, então introduza o réu. Anjo: Aí está ele. (Aponta para o bando dos réus. A luz aumenta um pouco. Vê-se Barrabás sentado ali). Juiz: Seu nome? Barrabás: Barrabás. Juiz: (Ergue os olhos espantado) Não é Silva? Barrabás: (Barrabás fica em silêncio). Juiz: (Volta-se para o anjo) Como é que o senhor vai introduzindo esse indivíduo assim? Anjo: Ordens. Juiz: Ordens? De quem? Anjo: De meu superior. Juiz: Há outro superior aqui além de mim? Anjo: Sim. Pois ele vai julgar todas as obras. Tudo o que estiver oculto, seja bom ou mau. Juiz: (Relutante) Então é isso que o senhor quer dizer. Estranho. Mas agora estou percebendo quem o senhor é. Promotor: (Ergue-se rapidamente) Eu protesto. Não quer ter nada a ver com o caso Barrabás. Anjo: Todos são Barrabás. Promotor: Além disso nós não somos responsáveis. Por favor, senhores. São dois mil anos! Anjo: Mil anos são como um dia. Advogado: (Pensativo) Como um dia no calendário. A minha mão tremeu quando arranquei a folha. Assim desaparece um dia atrás do outro. A gente mal percebe e diz: ‘Que diferença faz?’ E isso continua, ano após ano – as folhas caem inevitavelmente – caem e caem – e aí de repente, aparece alguém e diz ... Anjo: Sexta-feira Santa! (Silêncio. O promotor senta-se novamente). Juiz: A sessão está aberta. Processo contra Barrabás. Qual é a acusação? (Promotor encolhe os ombros). Anjo: (Busca a Bíblia da prateleira e entrega ao juiz). Juiz: (Folheia) Mas .. isso são os autos? Anjo: Sim. Juiz: A Bíblia? Anjo: Sim. Juiz: Ah é mesmo. É aqui que está a história desse homem. Mas onde é mesmo que ela está escrita? Anjo: João 18 versículos 38 a 40. Juiz: (Abre e lê) ‘O que é a verdade? – perguntou Pilatos. Então Pilatos saiu outra vez para falar com os judeus e disse: Não vejo nenhum motivo para condenar esse homem. Mas, de acordo com o costume de vocês, eu sempre solto um prisioneiro na ocasião da Páscoa. Vocês querem que eu solte o rei dos judeus? Todos começaram a gritar: Não, ele não! Nós queremos Barrabás. Ora, esse Barrabás era um assassino’. Promotor: Aí está. Preto no branco. Um assassino. Juiz: (Abaixa a Bíblia) O caso está resolvido. Promotor: A sentença então deveria ser mais clara ainda. Advogado: Não. Barrabás não foi condenado. Barrabás foi anistiado. Promotor: Onde está isso? Advogado: Eu me lembro muito bem de ter lido isso (Pega a Bíblia). Anjo: Mateus, capítulo 27, versículo 26. Advogado: (Lê) ‘Então Pilatos soltou Barrabás para eles’. (Volta-se para o promotor) O senhor ouviu? Promotor: (Pega a Bíblia. Lê também) Incrível! Juiz: Os senhores não acham que esta é uma decisão fundamental? Advogado: Sem dúvida. Promotor: Eu não entendo como este homem pôde ser anistiado. Juiz: Vamos ao assunto! Advogado: Com base no perdão concedido naquela época, exijo que o meu cliente seja libertado imediatamente. Juiz: (Volta-se para Barrabás) O senhor ouviu, réu? O senhor concorda? Barrabás: (Depois de uma pausa) Não. Juiz: Como? O senhor não quer ser libertado? Barrabás: Não. Advogado: Mas escute, Barrabás. Tenha juízo. Será que o senhor não entendeu que deveria ter sido condenado? E a sua pena seria de morte! A sua culpa não foi pequena. Assassinato é assassinato. E de acordo com as leis da sua época, isso significaria olho por olho, dente por dente. O senhor sabe disso? Barrabás: (Baixinho) Sim. Juiz: E o senhor sabe também que na sua terra assassinos comuns são pregados na cruz? O senhor sabe que morte é essa, a morte de madeiro? Terrível ... (Interrompe a si mesmo). Mas, o senhor está voltando a razão, não está? O senhor se superestimou quando protestou contra a libertação. O senhor não pensou que dessa vez a coisa poderia ficar séria. (Barrabás faz um movimento como se quisesse se afastar). Juiz: (Benevolente). Bem, agora o senhor está ficando mais razoável. É tudo bobagem, Barrabás. (Depois de uma pausa) O que mais o senhor quer? Temos prazer em ajudá-lo. (Barrabás permanece em silêncio). Juiz: (Sacode a cabeça) O senhor está aí como se estivesse sido pregado. Ouviu? Pregado. Isso tudo ainda pode acontecer. Mas isso vai fundo Barrabás. É diferente de um arranhão de um espinho. Isso rasga e queima. Como fogo. E a gente perde o fôlego. Barrabás: (Arrepiando-se) Como fogo... Juiz: Além da sede insuportável. Sem falar a vergonha e daquilo que os carrascos fazem: zombarias, torturas e outras crueldades piores. Mas porque estou dizendo isto? O senhor sabe disso melhor do que eu. O senhor conhece as práticas e costumes de seus compatriotas. E mesmo assim o senhor não quer ser agraciado? Barrabás: (Em voz baixa) Não. Juiz: (Impaciente) Mas então, o que é que o senhor quer? (Barrabás permanece em silêncio). Advogado: Fale réu. Trata-se de sua vida. Barrabás: (Relutante) Eu ... Não quero misericórdia. Eu quero ... os meus direitos! Advogado: (Tentando convencê-lo) Direitos? O senhor deveria dar graças por não estarem seguindo a lei ao pé da letra. O senhor estaria perdido com os seus direitos! Nós já tentamos lhe explicar o que o espera se o senhor recusar a sua sentença de libertação. Mas a execução da pena é mais terrível ainda. O senhor sabe que houve assassinos que ficaram entre 12 e 20 horas pendurados na cruz, gritando tanto que a cidade inteira os ouvia? Que a sua língua inchava, ficava preta e saia da boca? Que o seu corpo também inchava e os tendões dos pés se rompiam? Que bandos de moscas cobriam as feridas, mas nenhum soldado espantava uma só dessas milhares de moscas? Uma tortura terrível! Acredite! (Solta um riso forçado). Mas tudo isso é bobagem. Ou será que alguém está mesmo acreditando que o meu cliente seria tão idiota assim para recusar o perdão? Como os senhores iriam pensar numa coisa dessas? Pensem que não só não o torturaram, mas também o cobriram com presentes, cujo valor só alguém que ressuscitou da morte sabe avaliar. Deram-lhe relva a beira do caminho, a ave no céu, raios de sol, a escuridão da noite, pão para a sua fome e uma taça de vinho extasiante. Quantas dessas taças foram dadas a ele! Além disso também casa e cama, a volta para a mulher e os filhos. Cessou a fuga de seus perseguidores incansáveis. Dormir, sim, finalmente poderia dormir sem pesadelos, sem a espada da justiça pendendo sobre seus olhos! Será que um só desses presentes não seria suficiente para querer a libertação como um milagre sobrenatural? Réu! Barrabás! Homem! Será que os seus direitos valem mais do que esta liberdade? (Barrabás permanece calado). Promotor: (Zombeteiramente) Que direitos são esses? Direitos de um assassino? Barrabás: (Após longa pausa) O direito de receber a condenação. Promotor: (Espantado) Então é isso que o senhor quer dizer? O senhor quer o castigo? Isso realmente eu não esperava. Juiz: Com toda consideração pela sua pessoa, réu, mas será que o senhor poderia nos dizer o que o senhor quer com esse castigo? Barrabás: (Aos poucos) Eu ... não posso ... mais viver assim ... Juiz: Explique-se melhor. O que o senhor quer dizer com não poder mais viver ‘assim’? Barrabás: Sem que ... alguma coisa ... mude. Juiz: O que deve mudar? Barrabás: Eu ... Advogado: Eu entendo isso muito bem. Ele é um assassino. Naturalmente isso não é agradável. Principalmente diante das pessoas. Elas são impiedosas. Elas apontam o dedo para a gente: ‘Ai vem o Barrabás! Não cheguem perto dele!’ É por isso que ele quer se reabilitar ... (Barrabás quer dizer alguma coisa). Advogado: Deixe-me terminar o que estou dizendo. O senhor vai se espantar, mas o senhor já está reabilitado. A sua libertação é equivalente a uma anistia. Assim a sua honra foi reconstituída perante o tribunal. Inclusive perante o mundo. Ninguém pode acusá-lo. Ninguém pode chegar perto demais do senhor. (Barrabás sacode a cabeça) O senhor acha que não? Mas então diga quem está pondo obstáculos ao senhor? Eu vou tirar satisfações com ele imediatamente. Vamos lá, quem é? Barrabás: Ele ... Advogado: Ele? Quem o senhor quer dizer? Barrabás: O que foi ... a cruz ... no meu lugar. Advogado: (Mais retraído) Ah, sei. É dele que o senhor está falando. E ele não o deixa em paz... Barrabás: Não. Ele não me deixa ... em paz. Advogado: Mas o senhor o conhecia? O senhor já tinha ouvido falar nele? (Barrabás sacode negativamente a cabeça com força). Advogado: O senhor realmente o viu? Diante do tribunal? (Barrabás assente com a cabeça). Advogado: O senhor realmente o viu? Quero dizer, o senhor olhou para ele? Ou ele ... para o senhor? Barrabás: Não. Daquela vez eu não o vi. Daquela vez eu só tinha medo. Um medo terrível que me cegava. Porque eu tinha estado no cárcere. Será que alguém aqui sabe como é escuro lá dentro? Nenhuma janela. Nenhuma brecha na parede. Eu estava lá e tremia. Quando a água pingava do teto no meu rosto, eu me assustava e gritava. Eu também gritava quando os ratos corriam sobre a minha cabeça e quando as correntes das minhas mãos tilintavam. De medo eu gritava. De medo do escuro. E de que pudessem me esquecer. Simplesmente me esquecer lá embaixo. Aí eu batia na pedra com os meus punhos. ‘Ei, tem mais alguém aqui que vocês esqueceram. Um assassino! (Grita) Um assassino!’ Juiz: Acalme-se. Não o esqueceram. Advogado: O senhor não está mais na prisão, Barrabás. Barrabás: (Ergue-se sobressaltado) Não estou mais? Quem ame soltou? Advogado: Pilatos. O Supremo juiz. Barrabás: (Fora de si) Não! (Aponta para o público) /Foram eles aqui. Eu me lembro deles. Daquela vez eles também estam lá, como eles sempre vêm para as sessões nos tribunais. Como espectadores. O que vocês querem, hein? Vocês querem depor contra o assassino e dizer: ‘Olhem, aí está um malfeitor. Condenem-no; mas nós não temos culpa do que ele fez’. Será que vocês são inocentes mesmo? Será que vocês nunca sujaram suas bocas com uma mentira? Nunca amaldiçoaram o seu vizinho? Nunca rejeitaram sua irmã? Seus hipócritas! O que significa a sua gritaria? Ou não foram vocês que gritaram: ‘Fora com ele. Crucifica! Queremos a sua morte! Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!’ (Pára, esgotado). Promotor: Mas, por favor, réu. As pessoas não fizeram isso. Muito pelo contrário. Eles pediram a sua libertação. O senhor não ouviu quando eles gritaram: ‘Barrabás! Barrabás!’ o tempo todo? Barrabás: (Assusta-se, recorda) Eu ... ouvi, sim. ‘Barrabás! Barrabás!’ E depois: ‘Crucifica-o! Crucifica-o!’ Oh, essa gritaria horrível! Esses uivos das bocas espumantes! Esse ódio embriagante! A saliva nos lábios! Os punhos estendidos! E para quem era tudo aquilo? Como é que eles podiam exigir outra coisa que não fosse a minha morte? Uma sentença cem vezes merecida. Promotor: Mas eles não estavam falando de você, homem! Barrabás: Como não estariam falando de mim, já que sou um assassino? E eu não tinha esperado outra coisa. Eu tremia pelo corpo todo. Os meus dentes batiam. Será que eu sabia o que estava acontecendo? Será que hoje eu sei? ‘Crucifica-o! Crucifica-o!’, eu ouvia. ‘Crucifica-o!’ – e depois uma voz perto do meu ouvido. Uma voz fria e indiferente: ‘Você está livre!’ – e mais uma vez: ‘Livre! Vá logo!’. Eu vacilei. Era como uma espada. Como se o mundo se partisse em dois. É, foi assim mesmo. (Volta a meditação). Advogado: O senhor ainda não entendeu? Barrabás: Eu ... me recuso a entender Advogado: (Em voz baixa) Não seja idiota, Barrabás. Aceita os fatos de uma vez por todas. Barrabás: (Grita) Não! (Mais baixo) Não! Advogado: Mas porque não? Barrabás: (Não diz nada. Quer falar alguma coisa, mas cala-se de novo). Advogado: Diga. Diga de uma vez o que há de tão – inaceitável! Barrabás: (Aos poucos) Se a gritaria ... não era para mim, não era pela minha morte, ... então eles ... eles devem ter condenado o outro, não é, o outro ... (?). Advogado: Sim, o outro foi condenado. Barrabás: (Ergue-se e explode) Mas o outro era inocente! Advogado: Como o senhor sabe disso? Barrabás: Eu o vi – morrendo. Advogado: O senhor acompanhou o cortejo até o lugar da execução? Barrabás: Eu cheguei quando tudo já havia acabado. De repente eu estava sozinho no campo vazio. Caí no chão. Quando ergui a cabeça, ouvi batidas de martelo. Nitidamente. Um martelo batendo no ferro. Isso se ouve de longe não é? Naquela vez eu pensei que o mundo todo estivesse ouvindo; e o chão debaixo de mim tremia. Eu me levantei. Senti como os meus olhos se abriam. Pela primeira vez desde a prisão eles se abriam de verdade. E agora eles viam ... (olha fixamente para a frente). Advogado: O que os seus olhos viam, Barrabás? Barrabás: Viam que ele era inocente. Advogado: Como o senhor chegou a esta conclusão? Barrabás: Eu vi. Advogado: O senhor não pode dizer mais nada sobre isso? Barrabás: Não. Só que os outros dois, dois culpados, estavam nas cruzes do lado dele. Dois assassinos. Um deles blasfemava. E esse um ... teria sido eu. Promotor: Não confunda os fatos. Se o senhor, Barrabás, tivesse sido crucificado, então ele – refiro-me ao do meio – não teria sido condenado. Ele ou o senhor – não havia outra alternativa. Barrabás: Ele ... ou eu ... Promotor: O senhor entende isso? Barrabás: (Sacode a cabeça) Um mistério terrível. Promotor: Porque terrível? Barrabás: (Olha longamente) Como é que o senhor iria saber o quanto é terrível quando nos são abertos os olhos? O senhor não é um assassino. O senhor não soube o que significa ser culpado. Juiz: Todo mundo tem alguma coisa da qual se arrepende. Até eu, o juiz. Barrabás: Arrepender-se? É assim que o senhor chama isso? Juiz: Como então? O peso da sua ação de repente lhe ficou claro. Face a este sofrimento inocente, o senhor resolveu... Barrabás: (Interrompe veementemente) Não! Nada disso! Eu só sentia um peso enorme sobre os meus ombros. E a escuridão, da qual eu acabara de escapar, voltou ainda mais cruel. Promotor: Então o senhor voltou a ter medo? Barrabás: Não medo, meus senhores. De que eu iria ter medo? Eu havia sido libertado. Todos me felicitavam: ‘Saúde, meu irmão! Você nasceu sob um alto astral!’ (Pausa) Como eu odeio esse astral! Promotor: Eu não o entendo, Barrabás. As pessoas tinham razão. Barrabás: Assim como têm razão as crianças que não sabem o que fazem. Por acaso elas têm sangue do irmão grudado em suas mãos? Será que ouvem dia e noite a agonia da vítima? Será que vêem os olhos dele se fechando e a cabeça rachada? Como é que elas iriam entender que eu tenho medo da sua alegria? Que eu amaldiçôo a jarra de vinho, e que na casa de minha mulher fico sentado, calado como um idiota? ‘Você está ouvindo’, eu pergunto pra ela, ‘está ouvindo as marteladas’? A mulher sacode a cabeça e seca o suor da minha testa. ‘Não é nada’, ela diz. Mas eu vejo as três cruzes, eu as vejo em pé e no meio vejo a ele, com a cabeça coroada de espinhos. Promotor: A morte do crucificado não está sendo discutida aqui. Além do mais, o senhor não tem culpa dela. Barrabás: (Cada vez mais excitado) Eu, eu não tenho culpa da morte desse crucificado? Eu, que fui agraciado em seu lugar? Que saí livre na mesma hora em que o chicotearam e puseram a cruz sobre seus ombros fracos? Ah, se eu pudesse ter carregado aquela cruz! Eu não teria desfalecido com o peso como ele, que não matou ninguém nem fez qualquer mal nem qualquer coisa ruim. Eu só teria recebido aquilo que minhas ações merecem: mentira, inveja, ira, e finalmente o sangue que clamava contra mim. E eu sou inocente? Eu mereci cem vezes a morte que ele sofreu! Eu! Eu! É por isso que ele não me deixa em paz. Ele me persegue. Ele se coloca no meu caminho. Se eu pego uma corda para eu me pendurar nela, ele a arranca da minha mão. Se me atiro na água, ele me traz a salvo para outra margem. Até a faca que ergo contra o meu peito, perde o corte. E é sempre ele, que me olha com esses olhos terríveis e com a acusação ardente: ‘Você sabe o que eu fiz por você?’ (Em voz alta) Sim, eu sei! Mas eu não entendo! Por quê? Porque ele fez isso? Isso era necessário – por mim? Que homem é esse, esse crucificado – que morre no lugar de um assassino? Advogado: Defendo os interesses do meu cliente. Peço que a sessão seja interrompida. Barrabás: (Exalta-se) Não! Nem um segundo mais! Eu não agüento mais. Eu quero ... Eu quero ... Juiz: (Asperamente) O que é que o senhor quer? Barrabás: Eu quero que me condenem. Eu quero morrer, ouviram? Morrer como ele, na cruz, de acordo com a lei. Eu não quero aceitar o sacrifício dele! Eu quero apagar esses olhos ardentes. Eu não quero misericórdia! Eu quero ser livre. Finalmente livre. Promotor: Livre? Mas isso o senhor já está há muito tempo Barrabás: Será que se liberta um assassino, soltando-o? De que adianta livrá-lo das algemas e não da culpa? Juiz: (De má vontade) Cale-se, réu. Não podemos fazer nada além de aceitar a decisão tomada naquela ocasião. Se não, teríamos que inocentar o crucificado a posteriori. Barrabás: E porque o senhor não faz isso? Juiz: (Lentamente) Talvez porque todos nós precisamos dele – lá na cruz. Portanto, pode ir. Barrabás: Eu ... ir? Nunca! Juiz: Não podemos decidir outra coisa! Barrabás: Então que a vítima venha me acusar! Onde está você, irmão Abel? Porque você não vem depor contra mim? Juiz: Os mortos são mudos. Barrabás: Ele não tem uma mãe que fale por ele? Porque ela não aparece? Porque ela não vem e diz que Barrabás deve ser condenado? (Volta-se para a platéia) Chamem! Chamem, para que o seu grito atravesse os séculos até o dia em que lhe trouxeram o morto para sua casa! Chamem, mães do mundo inteiro (Grita) Aqui está o assassino! O assassino do filho! E agora ele vai ... (Pára subitamente. A mãe atravessa o público em direção a Barrabás. Silêncio. A mãe pára diante do juiz). Anjo: A mãe. Promotor: Não me consta desta testemunha. Quem a convidou? Anjo: O filho. Promotor: Ele é o acusador? Anjo: Acusador, defensor e juiz. Promotor: Ela deve ser ouvida? Anjo: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. (Silêncio. O promotor senta-se). Juiz: A senhora é ... Mãe: Eu sou a mãe do rapaz que Barrabás matou. Juiz: (Com voz contida) E a senhora não esqueceu nada, quero dizer, nada do que aconteceu daquela vez? Mãe: Nada. Juiz: A senhora concordou com a libertação de Barrabás? Mãe: (Lentamente) Não. Eu amaldiçoei o assassino, o desgraçado. (Dirige-se a Barrabás) Eu amaldiçoei você, Barrabás. Barrabás: (Depois de uma longa pausa) Sou eu; o assassino de seu filho. Eu estava esperando atrás do espinheiro quando ele desceu cantando pela montanha. Ele estava cantando, ouviu? Outra pessoa talvez teria se assustado com essa canção. Mãe: E você não? Barrabás: Mesmo assim eu ergui a minha mão Mãe: Você o odiava? Barrabás: Sim, porque ele era do outro bando. Mãe: E isso foi o suficiente para o seu intento assassino? Barrabás: Foi. Mãe: (Afasta-se de Barrabás) Por isso amaldiçoei a Deus pela segunda vez, quando anunciaram pelas ruas a libertação de Barrabás. Lancei fora o meu luto como se lança uma bengala que se tornou inútil. Dali em diante o meu ódio me manteve em pé. Fui ao tribunal. Ajoelhei-me no pó diante de Pilatos. ‘Você é o juiz’ – eu disse – ‘porque você não julga?’. Ele encolheu os ombros ‘O povo já decidiu’. Corri para o mercado. Gritei para o povo. ‘Devolvam meu filho, ou condenem Barrabás!’. Aí todos riram. ‘Barrabás está livre, e você vá falar com os escribas. Eles sabem porque tudo isso aconteceu’. Ai eu fui falar com os escribas. Mas eles não tinham tempo. ‘Você não está vendo que temos que ir ao Gólgota?’. Então perguntei: ‘Mas o que querem lá, já que Barrabás não está na cruz? Quem vocês querem ver morrer?’. ‘Ele, que tem mais culpa que todos nós’ – responderam. E então... então... Juiz: O que aconteceu então? Mãe: Então eu também fui ao Gólgota. E o vi. E o acusei. ‘Porque você está fazendo isto?’ – perguntei na minha obstinação. ‘Porque você está morrendo no lugar de um culpado? O juiz Pilatos não sabe. O povo, que pediu a sua morte, não sabe. Os escribas também não sabem. Então você precisa dizer-me!’. O homem torturado ficou em silêncio. Ele viu que o ódio devorava minha a alma. Mas o ódio cega e ensurdece. Juiz: Cega e ensurdece. Mãe: Esperei debaixo da cruz. De repente ouvi a voz. Juiz: A sua voz? Mãe: A voz de um moribundo. Mas uma voz que atravessa sepulturas e escuridão. Também a escuridão do meu ódio. Foi como se eu acordasse de uma longa surdez e pela primeira vez ouvisse alguém falar. Juiz: O que foi que ele disse? Mãe: As suas palavras não se referem a mim. Depois percebi que se dirigiam àquelas pessoas que estavam mais perto de sua cruz. Mas aquelas mesmas palavras me atravessaram como espada – e ainda assim, como uma espada de luz. Mas, será que as suas palavras não foram ditas para todos nós? Juiz: Para nós? Mãe: Para você – para mim. Para cada um a palavra que precisa. (Cala-se e então diz em voz baixa, porém firme) ‘Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe...’. (Cala-se novamente e então continua no mesmo tom). Eu me virei, e aí estava – Barrabás – atrás de mim. Juiz: O assassino? Mãe: Sim. E eu, ..., eu o perdoei. (Barrabás cobre o rosto com as mãos). Mãe: Ele cobriu o rosto com as mãos, como agora. Como se a luz da cruz o cegasse. Fui em sua direção. E ele fugiu noite adentro. Como um perdido. Mas eu sabia que o encontraria. ‘Procurei você pelo mundo todo’ (ela fala em direção a Barrabás) ‘Até que enfim eu o encontrei, Barrabás’. Barrabás: (Abaixa lentamente as mãos) Eu, eu matei o seu filho. Mãe: Todos nós matamos o Filho. Barrabás: Eu sou culpado. Mãe: Todos nós somos culpados. Barrabás: Eu ... eu fui condenado. Mãe: Todos nós fomos condenados, e todos nós fomos libertados. Barrabás: Eu... eu também? Mãe: Você também, meu filho Barrabás. Barrabás: Então não foi o povo que me libertou? Não foi o sumo sacerdote? Nem Pilatos daquela vez diante do tribunal? Mãe: Não, Barrabás. Você não estava livre, até este momento, em que você é perdoado no nome dele. Barrabás: Perdoado... Mãe: Ninguém é livre, se ele não o libertar antes. Você não procurava os seus direitos, Barrabás? Barrabás: Procurava. Mãe: E agora você os achou. O direito de aceitar a misericórdia. Como eu. E todos nós. Vá, Barrabás. Barrabás: Mas para onde devo ir... mãe? Mãe: Para ele. Venha, eu vou acompanhar você. (Ela o conduz pela lateral. O anjo os segue, enquanto a luz diminui). Voz do escrevente: (Fora, ecoando alto, em completa escuridão) Guarda! (Aproximando-se) Guarda! Guarda! (A claridade aumenta aos poucos, como no início. Vêem-se apenas os três magistrados). Escrevente: (Entra) O réu está pronto. Juiz: (Como se estivesse acordando) Que réu? Escrevente: Caso Silva! Juiz: (Espantado, depois de uma longa pausa) Que dia é hoje? Promotor: (Levanta a página do calendário) Quinta feira. Dia de sessão. Como sempre. Juiz: Quinta feira antes da Páscoa. Portanto, amanhã é ... Advogado: Sexta feira santa. (Silêncio). Juiz: (Ergue a Bíblia, diz para o escrevente) Coloque o livro no lugar de novo. (Quando o escrevente quer pegar a Bíblia...) Não! Ele deve ficar aqui. (Recoloca a Bíblia sobre a mesa. Silêncio. Depois, numa decisão repentina). Introduza o réu. O processo continua! (Enquanto o escrevente vai até a porta, a luz vai diminuindo). (Redigitada por Rev. Emiliano – janeiro de 2007.).

O Autor… e Tu e eu…

Este poema de amor É só meu!… - Que quem o escreveu… Fui eu!…- Ou será que não!?… E se é assim tão verdade… Então… Porquê deixou tanta saudade A queimar-me o coração!?… Não terá sido…talvez Porque afinal… No Bem…e no Mal Ambos…tu e eu Somos a causa Porque ele nasceu?!… E se assim foi… ele é dos dois!… Que dele… Eu serei o autor… Mas tu…és a inspiração… E não há que esconder…: Quando como aqui… Um poema fala de amor tão vivido… Em que quando dói no coração Dói por inteiro…e sem qualquer pausa!… É porque fala de um amor sentido!… Um amor verdadeiro!… E se raro foi aquele Que alguma vez o conseguiu viver… Com nós os dois… Tu e eu… - Bem antes de escrever Este poema…- …Esse Amor aconteceu… ……………….. …E é por essa razão Que o meu coração Nunca mais te esqueceu!… Manuel Sepúlveda*

O AMOR

… Porque é puro, Porque é raro, Porque é valioso, Porque é infinito, Porque é verdadeiro, O amor é um sentimento fino. Não se corrompe, Não se compra, Não se vende, Não se pede, Não tem preço. Doa-se, entrega-se, conquista-se… N. Rogero

Nada era dEle

Inspirado em Stanley Jones Disse um poeta um dia, fazendo referência ao Mestre amado: "O berço que Ele usou na estrebaria, por acaso era dEle? - Era emprestado! E o manso jumentinho, em que, em Jerusalém, chegou montado e palmas recebeu pelo caminho, por acaso era dEle? - Era emprestado! E o pão - o suave pão que foi por seu amor multiplicado, alimentando toda a multidão -, por acaso era dEle? - Era emprestado! E os peixes que comeu junto ao lago e ficou alimentado, esse prato era seu? - Era emprestado! E o famoso barquinho? aquele barco em ficou sentado, mostrando à multidão qual o caminho, por acaso era dEle? - Era emprestado! E o quarto em que ceou ao lado dos discípulos, ao lado de Judas, que o traiu, de Pedro, que o negou, por acaso era dEle? - Era emprestado! E o berço tumular, que, depois do Calvário, foi usado e de onde havia de ressuscitar, o túmulo era dEle? - Era emprestado! Enfim, NADA era dEle! Mas a coroa que ele usou na cruz e a cruz que carregou e onde morreu, essas eram, de fato, de Jesus!" Isso disse um poeta, certo dia, numa hora de busca da verdade; mas não aceito essa filosofia que contraria a própria realidade... O berço, o jumentinho e o suave pão, os peixes, o barquinho, o quarto e a sepultura, eram dEle a partir da criação, "Ele os criou" - assim diz a Escritura... Mas a cruz que Ele usou - a rude cruz, a cruz negra e mesquinha onde meus crimes todos expiou, essa não era Sua, ESSA CRUZ ERA MINHA!

Túmulo Vazio

Myrtes Mathias É madrugada ainda escura Havia silêncio no jardim Maria trazia perfume e mirra Para o corpo de Jesus ungir Mas o tumulo estava vazio A pedra removida maria encontrou Maria entrando nada ali havia E em desespero Maria chorou Saindo de pressa mui triste maria E com o varão Maria encontrou Com voz amada olhando atônita Onde o puseste ela perguntou Porque procura viventes entre os mortos Diga aos outros que ele ressuscitou Então Maria foi aos discípulos E mui feliz assim falou Ressuscitou..... ressuscitou Cristo jesus já ressuscitou (bis) declamação: Pedro, Thiago, João venham e vejam, o túmulo está vazio ele não está no sepulcro Jesus ressuscitou, aleluia, Jesus ressuscitou...

Meditação no templo

Myrtes Mathias Eu sei que estás aqui e as Tuas mãos me outorgam a procurada paz e a desejada calma - escuto a Tua voz nos acordes do órgão que nutre a minha vida e alimenta minh'alma. Estás aqui bem perto, em tudo o que se faz sincera e humildemente em nome de Jesus. Para o mundo em conflito és a hora de paz e para a vida escura - és o raio de luz! Eu sei que estás aqui e Tuas mãos espantam a solidão, a angústia, a inquietação e a dor, Tu estás entre nós nos hinos que se cantam, no silêncio da igreja e na voz do pastor. Estás aqui pertinho e as Tuas mãos outorgam a bênção eficaz que paira sobre nós - e nos hinos do coro e nas notas do órgão Tu nos fazes ouvir a Tua excelsa voz!

Levantai os olhos... e vede o campo

Myrtes Matias Lá fora, além das paredes que te cercam e protegem, longe do calor que te aquece o corpo e o coração,está a grande vinha do Senhor; crianças que perderam os pais, mil mulheres que vendem o corpo, milhões de jovens que procuram uma razão de ser; povo, que é teu povo, caminhando irremediavelmente para o abismo... Pára. Olha. Pensa. E ouve teu desafio na própria voz do Mestre: “Levantai os olhos e vede... Vai hoje trabalhar na vinha...” Ainda é tempo de obedecer, alcançar a vinha aqui, ali, além; sustentando aqueles que vão, onde estiver um deles pregando a salvação, tu estarás, também.

Há um Deus em Tua Vida

Myrtes Matias Quando te vejo tão acomodado ao mundo que te cerca, como a água tomando a forma do vaso que a contém, eu me lembro de um Rei coroado de espinhos, arrastando uma cruz pelos caminhos, pelas ruas de Jerusalém. Quando te vejo tão preocupado com rótulos e comodidades, tão desejoso de aparecer, eu me lembro de um jovem-Deus perdido no deserto, onde só feras e anjos O podiam ver. Um jovem-Deus que te entregou um dia o privilégio da Grande Comissão, o Qual negas com tua covardia, sucumbindo a promessas que te falam à carne e ao coração. Quando te vejo tão ocupado em construir celeiros, ajuntando fortunas que o ladrão pode roubar, eu me lembro de um Deus caído sob tuas culpas sem o conforto de uma pedra para repousar. Quando te vejo conivente com aquilo que Ele aborrece, ao ponto de ocultar a Herança que Ele te legou, pergunto: Seria falsa a promessa que fizeste ou o amor que tu Lhe tinhas era pouco e se acabou? Onde está teu grito de protesto, que já não escuto? Tua atitude de inconformação? Será que te esqueceste do santo compromisso ou te parece pouco o privilégio da tua missão? Por que tremes diante do mundo, temendo por valores que só servem aqui? Será que Cristo te escolheu em vão ou será que já não existe um Deus dentro de ti? Tu estás no mundo, mas não és do mundo. Não escolheste – foste escolhido. Por que te encolhes ao ponto de seres grande pelo padrão dos homens, comprometendo tua autoridade de condenar um mundo corrompido? Foste escolhido para uma missão tão grande que nem a anjos foi dada a executar: não te assustem ameaças, não te seduzam promessas, numa obra eterna, é melhor morrer do que negar. Lembra-te que há um Deus em tua vida que os teus atos devem glorificar

Caminhos de Deus

Myrtes Matias “Somos caminhos que Deus usa.” Senhor, do alto sei que vês melhor, quanto mais se sobe, maior a visão; Teus olhos abrangem a eternidade: contemplam o sol em sua imensidade, vêem o verme a se arrastar no chão. Para que então ficar gritando ao mundo: olha o que tenho, o que sei, que sou? Se lá do alto vês o mundo todo, Tu sabes, Senhor, onde eu estou. Tu sabes por que vim ao mundo, tens uma missão pra mim. Nada mais falta que submissão, dizer – Ordena. Abrir o coração. Ouvir a ordem e obedecer assim: Sem importar a obra que a mim couber, ou o lugar em que meu campo esteja. Pode ser obscura minha atuação, o que me importa é Tua aprovação, ser tudo aquilo que queres que eu seja. Talvez não tenha a sorte das estrelas que belas cintilam, dando inspiração. Talvez meu campo seja o mais mesquinho; que me importa, se me tornar caminho por onde passe a Tua compaixão? Foram caminhos os servos do passado, através de História um traço de luz: Abraão, Moisés, José, Rute, Davi, Jonas, Ester foram no tempo aqui apenas caminhos em direção da cruz. Os que vieram depois também são caminhos por onde a graça de Jesus passou em busca do oprimido e do aflito, caminhos que se fundem no infinito no Único Caminho que um dia me salvou. Agora, Senhor, a minha prece: eu quero a graça de participar, se não posso ser um caminho brilhante, faze-me atalho na serra distante mas onde o mundo veja Teu amor passar. Usa-me, Senhor, durante todo o tempo, para que no dia em que voltar ao céu, possa dizer-Te, com um sorriso doce: - Nada fiz, nada ajuntei, eu nada trouxe, na terra fui apenas um caminho Teu.

Assim Cantaria Barrabás

Myrtes Mathias Desde criança venho perseguido por um destino sem contemplação: para dormir eu encontrei a rua, nada cobriu minha pele nua, para comer fui mendigar o pão. Assim cresci em minha muda espera, na obsessão de um dia me vingar do sentimento que meus pais negaram, do abandono a que me condenaram não tendo tempo nem para me amar. Tornei-me salteador... Parava, às vezes, mudo, pensativo, no ermo perdido, fraco, incapaz; olhando o céu e desejando um fim: - Por que Jeová, Tu me fizeste assim, porque nasci imundo Barrabás? Até que um dia (pois há sempre um dia no destino bom ou mau de cada um) ouvi de um Homem vindo da Judéia, que milagres houvera lá na Galiléia, que mortos reviveram em Cafarnaum. E a pergunta que havia em meu peito fez maior. E, sem poder conter o desejo de ver o tal Messias, que mensagem nova nos trazia, saí, buscando-O, e me prender. Dias depois, na solidão da ceia, um soldado irônico me chama: - Vem, Barrabás, que amanhã é Páscoa, vem sentir como o povo te ama, te ama... Sigo tremendo... De Pilatos a voz estranha, horrível, abafa a algazarra enlouquecida: - A quem agora desejais soltar, a vosso Rei, que vos quer libertar, ou Barrabás, que tem roubado vidas? E a multidão satânica delira: - Ai falso Rei, Tu não escaparás! Foi sacrilégio o que fizeste aqui: dizer-te Rei do trono de Davi. Na cruz o Cristo! Solta Barrabás! E só então o Homem condenado volta os olhos para me encarar. Por que me olha assim com tal doçura? Dessem-me a cruz, a forca e a tortura, mas nunca a força e o amor dAquele olhar. Levam-no ao Gólgata. Tomam os madeiros e no maior passam a prender Jesus. Amedrontado e cheio de aflição, atravesso a imensa multidão e oculto-me aos pés daquela cruz. E vejo o Mestre receber vinagre, em meio a revoltante zombaria; Vejo sua carne pálida rasgada, Sua cabeça de espinhos coroada e “os soluços imensos de Maria”. E eu, salteador que o povo inda temia (que pelos meus altos merecia a cruz), suplicando, dirijo-me a Maria: -Responda-me: quem é este Jesus? E Madalena, quase num soluço: - É o Cristo. É Deus, portador da paz. Por nosso amor abandonou o céu, era um cordeiro, transformou-se em réu; morre em lugar do imundo Barrabás. E vi, então, a própria natureza mergulhar em trevas, enquanto Jesus, clamando: “Está consumado”, morria, para que eu fosse libertado, sobre uma cruz – minha própria cruz... Assim cantaria Barrabás o seu poema, Se a História o quisesse contar. E tu, que tens ouvido há tanto tempo, porém não tens crido, que o próprio Deus morreu em seu lugar? Chamas maus os que mataram o Cristo; mas podes tu viver em paz? Mataram a Cristo os teus desatinos. És também um louco assassino: - Diante de Deus tu és Barrabás. Via blog http://porcausadaflor.wordpress.com (acesse e leia muitos outros poemas).

Adoração

Myrtes Matias Voltar no tempo e no espaço, viver na Galiléia, rever, cena por cena, a vida de um Deus. Acompanhar a estrela para presenciar o estranho Milagre de Deus aprisionando Sua onipotência num corpo de Criança. Acompanhar este “Senhor de quanto existe” fugindo para a terra da servidão. Vê-lO, bem mais tarde, levantar do vício e do crime o publicano e a meretriz. Ouvir a voz suave: “Vinde e aprendei de Mim, que sou manso e humilde...” Manso e humilde... Tão humilde que se ajoelha no Getsêmane para chorar a degradação da própria imagem. Tão manso que caminha para o Gólgota, sob a cruz, sem uma queixa. Emudecer de espanto ao ver este Deus-sem-lugar ser suspenso entre o céu e a terra, que não teve um berço para nascer, “uma pedra para reclinar a cabeça”, maldito sobre uma cruz. Ouvir este Deus, coberto de dor e vergonha, prometer o paraíso e oferecer perdão. Perdão... Seu evangelho, Seu ensino, Sua última palavra até que o “Tudo está consumado” alcançasse o céu e as trevas cobrissem a terra. Caminhar até o sepulcro e encontrá-lo vazio. Deixar Jerusalém e subir ao monte para ver abrirem-se os céus e cair de joelhos. Porque todos os joelhos se curvam, todos os lábios se calam, para ouvir em prece: “Este JESUS há de voltar um dia...”

A mulher adúltera

Manhã, clara manhã de sol rompendo as brumas, como um barco vermelho a singrar entre espumas... Campo de Luta. O sol é um gladiador selvagem e tinge com seu sangue a sombra da paisagem... ...Jesus, depois de orar a noite inteira, envolto em manto singelo, o cabelo revolto, a barba em desalinho, as sandálias manchadas pelo vermelho pó das longas caminhadas, ensinava no templo apresentando ao povo a larga nitidez de um horizonte novo... A estrada do porvir, imensa, inatingida, a nova Canaã, a Terra Prometida, que Moisés procurou no meio do deserto, parecia tão longe e estava ali tão perto! Ele era a porta aberta, o ensinamento, o exemplo... Nisto um bando sinistro avança pelo Templo, escribas, fariseus, num cínico mister: - Prendamos a Jesus, matemos a mulher! ... Em meio ao burburinho uma jovem bonita, pálida, maltratada, atirada e maldita pela lei de Moisés, esperava a sentença, "o prêmio do pecado", a negra recompensa de um ilícito amor. Envergonhada e muda, aguardava o suplício, a pedra pontiaguda que em seu corpo moreno, em ferida medonha selaria a desgraça, o martírio, a vergonha... Depois, a treva imensa e um corpo ensangüentado expostos para exemplo: "o prêmio do pecado". Fora presa em seu leito imundo e deletério no instante em que a paixão se fizera adultério. No intenso vozerio, uma voz se levanta: - Jesus de Nazaré, que dizes desta santa?! Merece a maldição que nossa lei ensina, ou merece o perdão que é da tua doutrina?... Jesus indiferente, alheio à multidão, abaixa-se a escrever com o dedo no chão. Depois, ergue-se altivo, os olhos vivos, a alma profundamente clara, imensamente calma, e destrói a pergunta em um único brado: - Lance a primeira pedra o que não tem pecado! Abaixa-se de novo o Pai dos Evangelhos e o povo se dispersa, a partir dos mais velhos. Só Jesus e a mulher. O perdão e o pecado, a negra escuridão e o dia iluminado... A humilde pecadora aguarda comovida o fim que lhe daria o que lhe dera a vida... - Ninguém te condenou? - pergunta o Nazareno. - Ninguém, Senhor, ninguém. - Pois nem eu te condeno. E, erguendo meigamente os olhos paternais, falou: - Podes partir. Mulher, não peques mais!!!

A Cruz do meio

Myrtes Mathias Ergue-se a cortina do tempo. Um bebê entre palhas, sorri, Uma virgem chora, um ancião contempla... Depois... Uma mãe ansiosa que procura o filho, Um adolescente que responde: "preciso cuidar dos negócios do meu Pai". Desenrola-se a cena: Um homem no jordão, no deserto, na Galileia, Samaria; Paralíticos andam. cegos veem, mortos ressuscitam, infelizes encontram consolo! A cortina abre-se por completo: Três cruzes! Três símbolos de humilhação, culpa e dor. Quem está à direita? Um criminoso arrependido; À esquerda? Um revoltoso, um réu recalcitrante. E no meio? Alguém que não se queixa, que sofre em lugar dos outros, que tem nos olhos tristes, a luz do perdão, e na cabeça pendida, um gesto de benção. Por quem corre aquele sangue? Pára! Olha! Medita! A cortina rasgou-se de alto a baixo: um bebê entre palhas, um adolescente entre doutores, um homem no Jordão, no deserto, na Galiléia, em Samaria... Depois... Caminha mais um pouco. O que vês? Três cruzes! Na do meio um homem que morre por ti. Contraste! O homem que morre é o Deus que te ofereceu a vida. Pensa! Medita! Aceita! Aceita o bebezinho entre palhas, o adolescente entre doutores, o homem que faz milagres. Esta cruz do meio! Pesada e negra cruz da infância, do sofrimento, da humilhação de um Deus. De um Deus que ama, perdoa e diz: "Hoje estarás comigo no Paraíso". Nada era dele, disse um poeta um dia fazendo referência ao Mestre amado. O berço que ele usou na estrebaria por acaso era dele? - Era emprestado. E o manso jumentinho que em Jerusalém chegou montado E palmas recebeu pelo caminho Por acaso era dele? - Era emprestado. E o pão, o suave pão que por seu amor foi multiplicado alimentando toda uma multidão por acaso era dele? - Era emprestado. E os peixes que comeu junto ao lago e ficou alimentado. Esse prato era seu? - Era emprestado. E o famoso barquinho, aquele barco em que ficou sentado mostrando à multidão qual o caminho por acaso era dele? - Era emprestado. E o quarto em que ceou ao lado dos discípulos, ao lado de Judas que o traiu, de Pedro que o negou por acaso era dele? - Era emprestado. Enfim, nada era dele! Mas a coroa que ele usou na cruz e a cruz que carregou, e onde morreu Essa era de fato de Jesus. Isso disse um poeta, certo dia numa hora de busca da verdade, mas não aceito essa filosofia que contraria a própria realidade. O berço, o jumentinho e o suave pão, os peixes, o barquinho, o quarto e a sepultura eram dele a partir da Criação. Ele os criou - diz a Escritura. Mas a cruz que ele usou a rude cruz, a cruz negra e mesquinha onde meus pecados todos expiou não era sua. Essa cruz era minha!

Judas

Judas Diocleciano Cavalcanti E Judas entrando alucinado e louco, contempla, horrorizado do seu crime infame, o povo, a quem há pouco vendera o grande Mestre, e entregara seu nome, por 30 moedas traidoras e diz: ‘Eis que vos trago o infernal dinheiro... Foi um crime de horror que em chamas me consome. Era inocente, justo, nada fez, eu sei’. E atira sobre o chão, desesperado como um cão maldito, o preço criminal da negra traição, e sai precipitado quase a desvairar-se... Ao longe contemplando as margens do Jordão onde JESUS pregara, exclama: ‘Traí! Ele Era tão bom, tão manso e caridoso. Ele que tinha somente nos lábios divinais a compaixão de um grande coração. Um vil, um traidor, um renegado eu sou! Porque viver tão mal ... tão criminoso? Só a morte será justiça para mim’. E coberto de remorso meditou: ‘Como me lembro ainda... Ele, JESUS, era tão bom, eu vi; A todos atendia e nunca condenou a quem perdão em súplicas pedia. Curava os cegos, levantava os mortos, e até os próprios inimigos perdoou. Ele JESUS era a bondade imensa’. E de repente perpassa-lhe na mente, do meigo nazareno, a cândida figura, sorvendo sobre a cruz o cálice da amargura. Era o remorso do seu crime horrendo, pois em visão, chegava-lhe JESUS, de lado trespassado trazendo-lhe perdão. E doido, desvairado, exclama: ‘Não! Não posso merecer de DEUS a compaixão. Meu crime é sem igual!’ E subindo veloz num galho de figueira, um laço preparou; E de olhos fitos na amplidão distante, o monstro se enforcou. E do Calvário além, pregado em uma cruz, Pendia ensanguentado o corpo de JESUS.